drops rock

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Trem Doido de Gumarães Rosa


Trem doido de Guimarães Rosa 


Guimarães Rosa é um dos maiores ficcionistas da Literatura Brasileira. Em sua obra conseguimos captar tamanha beleza que sua prosa se assemelha a poesia. Dada é a perfeição com que usa as palavras nem  nos parece tão cruel as histórias reais em que a sua ficção foi gerada.

   Em seu clássico livro de contos “Primeiras Estórias” publicado em 1962 encontramos o conto “Soroco, Sua Mãe, Sua Filha”. A história se passa em minas Gerais aonde Soroco, viúvo, vai levar a mãe e a filha para o trem que segue para Barbacena onde ambas irão desembarcar num hospício. Soroco já não mais consegue conviver com elas que ficam falando sozinhas o tempo inteiro. Elas irão viajar no trem que é alcunhado de trem de doido e embora exista um lirismo indiscutível e até uma perceptível tristeza na ficção, a realidade em que o conto foi inspirado é de amplitude muito mais cruel e desumana.


  
O trem que é citado no conto fala de um transporte que realmente existia e que levava homens, mulheres e até crianças para o Hospital Colônia de Barbacena, hospício que existia e ainda existe na cidade em Minas. Tal instituição foi fundada em 1903 e naquela época o país ainda sofria os reflexos das teorias da eugenia e “higienização social” o que cabe dizer que grande parte dos internos que foram para o Colônia não sofria de nenhuma patologia mental, bastava ter algum comportamento considerado desagradável para a sociedade da época: marginais, prostitutas, opositores políticos, alcoólatras, homossexuais, mendigos deveriam ser afastados do convívio social.
    Outro agravante que fez com que o hospício permanecese superlotado é que na época, sobretudo na segunda metade do século XX, houve uma crescente migração de nordestinos fugindo da seca do sertão. Mas ao chegarem às cidades do sul não recebiam nenhum tipo de auxílio ou mesmo conseguiam emprego permanecendo dessa forma marginalizados e por consequência removidos para o Colônia.  
    Na época várias linhas ferroviárias levavam á cidade de Barbacena e o trem com destino ao hospício se tornou tão popular que a expressão “trem doido” se tornou comum em Minas dado esse transporte existir.
   O maior legado que os escritores podem deixar a posteridade é que sua literatura nos aponte outras realidades e reflexões e foi a partir do conto de Guimarães que descobri toda a história de horror e crueldade que ocorria nesse hospício, aliás, que esse hospício existia. Descobri por acaso quando quis saber de onde vinha a expressão “trem doido” até porque as histórias de Guimarães Rosa mesclam uma espécie de “místico” que só via ficção ali. Surpreendi-me com esse fato e isso é realmente louvável de consideração pois passei a enxergar sua obra por outros ângulos, como também fala da loucura em “A Terceira Margem do Rio”, outra pérola encontrada no “Primeiras Estórias”.
  
Recentemente foi lançado um livro que documenta tudo o que aconteceu no hospício Colônia : Holocausto Brasileiro da jornalista Daniela Abrex que vale a pena ler, quanto a obra de Guimarães Rosa.






http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao44/materia06/

O Humor Finíssimo de Millôr e de Veríssimo


O Humor Finíssimo de Millôr e de Veríssimo 

   O humor sempre foi considerado pela elite literária um gênero menor de Literatura, talvez por seu caráter de brevidade e superficialidade na descrição das personagens e ambientes.



 Por outro lado, essa aparente fugacidade está mais atrelada aos veículos onde essa literatura é publicada. Refiro-me a crônica, gênero textual encontrado em jornais, revistas e hoje na internet, nos blogs. 
   No contexto histórico o Brasil da segunda metade do século XX passava por perceptíveis transformações na economia e na sociedade de costumes. Projetos governamentais para minorar o analfabetismo e a busca de modernização  da indústria no país trazida por Juscelino Kubitscheck contribuiam para o aumento de publicações de livros e revistas. A televisão ainda não era um meio de comunicação que atingia grande parte da população, dessa forma o rádio e a mídia impressa tinham destaques capitais no objetivo de formar e informar a sociedade. Uma das publicações de maior notoriedade foi a revista O Cruzeiro que chegou a ter 750 mil exemplares vendidos, um marco para a época. E é  nessa publicação que Millôr Fernandes        ( 1923-2012 ) inicia sua carreira.
   Considerado um dos maiores pensadores no  Brasil contemporâneo. Millôr não  se restringiu apenas a escrever crônicas. Foi artista plástico, teatrólogo, tradutor, desenhista jornalista e dizem até que inventou o frescobol - esporte jogado nas prais o Rio de Janeiro. Ainda sobre suas habilidades, Millôr Fernandes foi influenciado pela poesia concreta de Haroldo e Augusto de Campo, antenado que era com as vanguardas literárias.
 
 A pluralidade das atividades dos escritores atuais é bastante recorrente. Dos contemporâneos de Millôr temos o gaúcho Luís Fernando Veríssimo ( 1936 ) que, dada as proporções do termo, assemelha-se a um multimídia pois além de cronista escreve contos, já escreveu livro de culinária, faz roteiros para diversos programas de televisão, é cartunista, tradutor e ainda é saxofonista nas horas vagas.
   Podemos encontar algumas semelhanças  na literatura de Millôr e Veríssimo. A mais óbvia de todas é que ambos escritores usam do humor e da crônica como formas de expressão. Outro ponto de consonância está explícito quando ambos questionam a língua portuguesa e as palavras em seu sentido concreto como faz Veríssimo em "Sexa" e Millôr com as "composições Infantis". Ainda temos de semelhança o gosto por aforismo- aquelas frase curtas mas dotadas de filosofia e reflexão.

   Se persiste uma resistência de parte dos intelectuais em crer que o humor não agregue motivos para reflexões, é importante citar a grande contribuição que o jornal O Pasquim trouxe para a sociedade brasileira no tempo em que o Brasil atravessava um regime de exceção. Com liberdades estéticas e políticas negadas O Pasquim foi um marco no jornalismo ao driblar a censura com irreverência e crítica. Millôr Fernandes foi um dos principais colaboradores do periódico assim como Veríssimo, este com uma colaboração mais discreta mas tão combativa quanto aquele.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Conto de F...da

   Toda malícia resume-se, camufla-se atrás do olhar inocente. Noutras vezes um jeito desleixado e politicamente incorreto no trato às mulheres pode conter no íntimo uma timidez singular. Reconheço: nunca fui santo. Com as artimanhas dos adolescentes conhecidos mais pervertidos fui crescendo. Fiquei corpulento e desajeitado. O volume na calça jeans fazia-me corar. Verdadeira aflição lidar com a mudança. Mas mudava. Pensamentos sensuais resultado no lençol. A mãe fazia vista grossa. E o tempo embora indo. Ampulheta por ampulheta. E passaram-se meus quinze anos. Cheguei aos vinte e hoje quase vinte e cinco. Sou homem feito ou desfeito em alguns assuntos.  A incompreensão embriaga-me alguns momentos. Como pude passar tanto tempo sem arrastar uma mulher? E arrastar é burlir, invadir a intimidade de uma fêmea. Não finjo ou forjo desculpas. Casa pequena, poucos namoros ou namoros curtos, escassas farras somado ao to de deboche de minhas atitudes. Talvez o jeito com que me expresse verbalmente. Às vezes brincalhão ao excesso, noutras taciturno e responsável. Preciso atingir o meio termo antes que meu extremo atinja o meio. O desejo da transa me queima, arde-me e é tão normal! Creio que todos os homens “normais” sintam isso, mas sei ainda que esses mesmos homens conseguem saciar suas vontades. Não podia sufocar-me com tal sigilo. Desabafei com meu melhor amigo. Aliás concluí que queria porque queria ter uma relação íntima com uma garota . Minha virgindade já era assunto entre os mais conhecidos para meu desalento. 
   E foi cansado de ficar na mão – e ficar na mão aqui em sentido ambíguo- que conheci Júlia numa festa, dessas festas quaisqeres. Bêbada como não deixava de serem as degeneradas. Embora seu hálito estivesse degradante mantinha uma beleza especial. Reparei seu corpo, muito gostoso por sinal. Uns seios robustos e convidativos. Pernas que quiçá andaram por muitos matagais por aí, imaginei. Como sou maldoso! Mas quem não seria?
   Conversa muita, ação nenhuma. Ainda assim tentei a sorte andando rumo norte. Foi em vão. Xinguei um palavrão.  No dia seguinte, mesmo sem questionar acabei recebendo as más novas da forasteira. Viera de outro estado, mora de favores na casa de uma parenta.  Saíra de sua cidade natal por má conduta emocional, ou antes, sexual. Pertencia ao rol das "desajustadas”. Se alguém a desejasse não o seria por todo o sempre. Ah, como eu fora tolo. Ainda titubeei algum escrúpulo da parte daquela vaca!... Perdão, o pobre animal não merece tamanho rebaixamento moral para a sua espécie.
  No fundo, no fundo, talvez meu sentimento fosse uma flamejante inveja incendiando meu peito. Como pode uma jovenzinha - sim, porque Júlia só tinha quinze anos – ter todos esses incidentes eróticos sendo uma mulher interiorana enquanto eu, um macho  e adulto com cara de mau e cheio de cicratizes não ter deitado com uma prostituta que fosse?!
   Mas aí estava a questão do escrúpulo. Jamais eu me deitaria com uma mulher da vida. O fato de pagar para ter uma ejaculação parecia-me um apelo muito ridículo. Só de pensar não sentia tesão. Por outro lado, qualquer puta me interessava, desde que me desse com todo prazer, sem os apelos financeiros encontrados na moderna mas lodosa sociedade capitalista. 
   Quando soube da novidade, da liberdade libidinosa de Júlia alcei minhas sobrancelhas. Dessa vez essa não iria escapar. Estudando minha árvore ginecológica Marina ficou com aquele chato na viagem à casa de praia. No acampamento segurei vela de muita gente, ou melhor, segurei lampião. Virgínia entrou para o convento e a Rita levou meu sorriso quando morreu por causa de problemas cardíacos. Na fazenda, nas férias, jamais em sã consciência usaria as cabras do avô para saciar meus instintos animalescos como faziam meus primos de lá de longe. O diabo é que até homossexual me ofereceu! Mas não era nada disso, o lance era mulher – fosse ela esquálida ou balofa , ruiva ou sarará, sei lá...  Eu queria, precisava, necessitava, urgenciava uma mamífera da espécie homo sapiens para jorrar o meu leite e Júlia parecia ser a presa certa.
   Ao contar meu desejo a um de meus colegas foi ele mesmo quem me falou:
   _ah, a Júlia? Ah, já comi. Ela quis me dar e foi em casa mesmo. Nossa!Como é macia!...
   Quase molhei a cueca. Suei-me. Só de pensar sentir meus dedos perseguindo cada curva voluptuosa daquela forma. Entretanto, com algo eu não contava. Este meu amigo dias idos desentendera-se com a moça. Antes porem dissera que eu queria ficar com ela. Na hora Júlia até se interessou só que depois da discussão de ambos ela decidiu voltar atrás pois isso de ficar comigo representaria consentir com seu não mais amigo. Mesmo assim fui teimoso. Saímos uma noite dessas de céu límpido a caminho de uma pizzaria afinal mesmo não ocorrendo nada ao menos tudo acabaria em pizza. Estávamos em turma até o momento de nos deixarem sozinhos dentro do carro. Assim o teatro abriu as cortinas. Investia com palavras, ela negava. Investia com gestos, ela olhava para fora. Investia com toques em sua pele, ela repelia. Investia finalmente com um beijo roubado, ela me fez desistir com uma tapa.
   _Ai!
   _Machucou?
  _Ainda não.
  _Você será capaz de tentar continuar?
   Eu me esquecera de dizer a ela que para evitar o estupro era necessário somente dizer “sim”. Meu amigo, esse outro, dono do carro, já sabia de minhas intenções com Júlia e me apoiava. Tanto que resolveu dirigir para uma estrada deserta e sem luz, às desoras da noite.  Captei reação alguma de Júlia, parecia até que gozava com aquilo. Até que meu amigo deu ré e retornamos para casa...
   Na noite anterior nada dera certo. Nada dera. Nem Júlia dera. As madrugadas vindouras mostraram-se difíceis para mim. Andava obcecado. Queria Júlia da maneira que fosse. Absurdo todos ali terem-na nos braços e sentirem sua volúpia menos eu. Tal situação trazia inconformismo.  Pensava em pegá-la à força. Dado momento me relampeou um truque. Seria mesmo à força. Involuntariamente...
   Todos sabiam da ninfomania daquela garota daí concluí que qualquer homem transaria com ela, até meu melhor amigo, bastava convencê-lo de aceitar chamá-la pra um motel ela aceitaria sem sombra de dúvida. E onde eu entraria nessa história? Ora... No banco de trás do carro...


   Muita trepidação na estrada de terra, principalmente é sensível às lombadas quando se viaja debaixo do banco traseiro de um fusca. Que situação desconfortável. Foi por pouco tempo. Mas eu suei, me amassei, peidei, enfim, foi duro. Meu amigo desceu do carro junto à Júlia que já lambia os beiços, não por se tratar daquele cara mas pelo glamour de ir num motel pois jamais visitara um em sua cidade. Lá os meninos chamam de “matel” por ser mesmo no mato.
   Meu amigo se recusava a deitar com a moça. Ele simplesmente apagaria a luz do quarto e me chamaria. Depois do fato consumado acenderíamos os holofotes e o riso tomaria conta do recinto. Minha vingança estaria tomada. Aquela vadia não era mulher de copular para esse meu amigo que já era muito experiente, apenas se divertia com tudo aquilo. Dizia que não valia a pena se envolver com um espírito tão inferior como o da estirpe de Júlia. Eu pensava em tudo isso minutos antes de descer do carro. Aquela seria a minha primeira relação sexual, ao mesmo tempo porque considerar um acontecimento tão célebre e escolher uma criatura deveras inútil e desprezível? Será que eu não estaria exagerando na ânsia de cumprir um papel social que o mundo me impunha? Era o lado individual e o coletivo zanzando em minha cabeça. Poderia ser aquela uma experiência traumática para o resto de minha vida. E se os poréns realmente cruzassem meu destino? E se a vagina daquela adolescente fosse mesmo macia a ponto de eu confundir desejo com amor e me apegar aquela messalina?
   Caramba! Meuá amigo estava demorando. Será que com toda aquela demora teria decidido voltar atrás e metido com ela?
   É... Meu amigo estava realmente se demorando na alcova. Talvez tivesse se esquecido de mim com tudo aquilo em sua frente. Não, ele não poderia ter me traído, ou pelo menos traído a minha confiança. Minha paciência no fim. Levantei do carro e caminhei até a porta. Coloquei meu ouvido próximo à porta do quarto. Aí me veio infeliz palpite: vozes. Sussurros, gemidos, urros! Não aguentei e abri a porta que meu amigo deixara sem a tranca. Quando entrei meu amigo esparrachado na cama assistindo filme pornô.
   _Cadê? Cadê a Júlia?
   _Quê que cê tá fazendo aqui, seu panaca? Espera lá fora. Olha, ela tá na sauna, quer ver?
   Ele abriu a porta da sala da hidromassagem e pude ver Júlia através dos espelhos retrovisores das paredes laterais nadando como um peixinho, mergulhando como um submarino amarelo, maravilhosa... Mas eu podia ficar apenas admirando aquele corpo moreno sem poder fazer uma massagem de onze dedos sequer!
   _ Tá demorando por quê? – inquiri.
   _ cara, ela não quer que eu apague a luz. Ficou impressionada com a decoração do quarto!
   _ Idiota! Da próxima vez vê se procura um motel mais ralé.
   _ O papo tá bom mas é melhor você voltar lá pra fora. Aguenta mais um pouquinho até ela pegar no sono aí você entra e eu saio.
   Então retornei.
   E, depois de muito titubear afinal eu me decidia. Não iria mais fazer aquilo.  Meu tesão poderia esperar. O ser humano por mais instintivo que seja pode controlar suas vontades. Qualquer garota não valeria a pena. Somente por vaidade? Só porque o mundo inteiro comeu Júlia? Ora, eu não era o mundo inteiro! Era um homem virgem mas um homem reflexivo, um filósofo...
   Tam! Tam! Tam!
  _ E aí? Vâmo? Desce do carro!
  _ Olha, não é por nada não...
    Meu amigo, de cabelo em pé, desacreditava das minhas palavras. Xingou-me de veado pra baixo. Disse que se era pra ouvir merda... etc etc etc...
   _Ah, vai lá você e faz com ela.
   _ Eu? Eu não!
   _Qual o problema? Ela só é mais uma fêmea para um macho já iniciado, não para mim.
   _ mas ela não me atrai. Já deu pra todo mundo. Tenho até nojo. Pegar uma doença venérea? Eu, hein!
   Agora quem desacreditava era eu. Enfim, foi o tempo de piscar de olhos ele entrou no quarto. Uns vinte minutos mais ou menos ele voltou.
   _ E aí?
   _ Não teve jeito, ela não quis me entender e saiu pela porta de trás do quarto. Vestiu a calcinha, o sutiã, a calça, a miniblusa, pegou seus badulaques e foi-se embora. Agora você pode se sentar no banco da frente do carro à vontade, não precisa ficar escondido aí no fundão, não...
   _ O quê? Sair do motel com você dentro do fusca? Ora, vá se foder! Eu vou ficar debaixo do banco mesmo.
   Assim ganhamos a estrada.
   Passado aquela conturbada noite minha vida continuou a mesma. Ainda sou o mesmo homem malicioso porém virgem e que quer sentir o prazer do sexo.
   Meu amigo é que já não é o mesmo. Júlia, despossuindo qualquer escrúpulo, espalhou aos quatro cantos que ele a levara no motel mas não soubera o que fazer. Tornou-se bicha pela boca de alguns malditos...


Verão de 1999



quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Drops Rock 55 - Futebol




   Drops Rock 55 mostra a seleção de craques do Rock. Será que o ritmo musical tem alguma coisa a ver com a bola no pé? Olha que isso pode dar samba! A verdade é que se o Brasil é o país do futebol alguém mentiu, entende?