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segunda-feira, 14 de março de 2016

O Clandestino: A Série - parte 1

Esse é o primeiro capítulo de uma série que estará disponível aqui no blog, contando um pouco do que foi a primeira atividade jornalística minha e de alguns amigos. Divirta-se!




Há 17 anos dois jovens idealistas realizaram um projeto audacioso na periferia onde moravam: decidiram lançar um fanzine. E hoje, diante de todas as proezas que o computador, os celulares e toda a modernidade trazida pela cibernética é até compreensível que tenha gente que não saiba o que significa fanzine. Segundo o dicionário on line Michaellis:

fanzine 
fan.zi.ne 
sm (ingl fan+(maga)zine) Publicação de imprensa alternativa, geralmente dedicada a assuntos musicais e outras manifestações culturais.


   Sim, um fanzine destacava assuntos culturais, e no nosso caso, a ausência de espaço cultural era objeto de pauta de nossas matérias. A ideia de lançar um fanzine partiu de Mauro Marcel e de mim que capitaneamos o projeto. Em tempo, nós éramos mais que a média em intelectualidade ( por favor, não comparar com cultura nerd! ) e decidimos pôr esses exercícios de pensamento à prova. Para tanto, precisávamos custear isso. Decidimos então cobrar o jornal, estipulando o valor de R$1,00 ( um real ) o que na época não era ruim, a inflação ainda não era real. Mesmo assim, sempre aparecia alguém que queria o exemplar sem pagar, e quase sempre cedíamos. Cada exemplar continha oito páginas e tudo que vinha escrito ou desenhado era conteúdo próprio. 
   
Interessante é que estávamos num momento de transição tecnológica, pois há pouco usava-se mimeógrafo para distribuir material "subversivo" ou mesmo os professores que rodavam nossas avaliações em pré-históricos mimeógrafos. Usávamos máquina de escrever. Eu nunca fui um exímio datilógrafo, acho que o Mauro Ainda era melhor, muito embora ele e eu tenhamos frequentado a mesma escola de datilografia do bairro, a Dona Clemes, senhora essa que já vale uma reportagem por si. Todo o bairro e cercanias estudou com a dita professora, verdadeira cria do militarismo, ainda tão arraigado em hábitos e costumes, atitudes essas que não passavam ilesas de nossa pena. Mas também utilizamos computadores, ao menos na digitação porque internet ainda estava bem distante de nossa terra.
   Obviamente que não estávamos sozinhos nessa empreitada, contamos com a participação de vários amigos nossos. Nessa época um de nossos parceiros viajou para Londres e passou a nos enviar cartas de lá, passou a ser o nosso correspondente internacional. Elio, tenho guardadas as cartas até hoje. Tivemos a participação ainda de Estrela Guevara, da Penélope, do Tonhão e principalmente do apoio moral de um amigo nosso chamado Mingau ( por onde ele anda? ) que já tinha uma fértil experiência na arte de elaborar fanzines. 

   O Clandestino chegou a receber até correspondências pelo correio! Hoje quase todo mundo utiliza e-mail, ou facebook ou ainda whatsapp. E quando falei sobre os reflexos do regime de exceção que dão poupava repreender comportamentos morais "politicamente incorretos" recebemos até cartas de senhoras que coravam com a figura indecorosa de Patonheta, personagem
quadrinhistico criado por esse que aqui vos escreve! E comparar tal desenho com as letras dos funks que são tocadas hoje nas rádios e nos shows, Patonheta é pinto (!).
    Enfim,  O Clandestino durou sete números, não houve nenhuma briga ou tragédia quando se deu seu final. Acredito que semelhante a Millôr com seus parcos números do Pif Paf ou mesmo Drummound ao lançar a 
Klaxon, O Clandestino deu seus frutos. Elio é um profundo conhecedor da língua inglesa- chegou até a ler Shakespeare no Original. Mauro é um ímpar literato, já tendo lançado livros e ganhado alguns concursos.
Eu continuo por aqui, escrevendo fanzine! Mas com muito mais público, gastando menos dinheiro, com canal  Youtube, lecionando nos cursos afora, desenhando, estudando sobre música e me especializando em generalidades. E o melhor de tudo: nós continuamos amigos!


Nos próximos capítulos os fanzines publicados na íntegra acompanhados de um estudo do contexto histórico.