Pátria de Chuteiras e Botinadas
A
apropriação dos gostos populares para fins políticos sempre ocorreu na história
da humanidade e ainda acontece até hoje seja através da música, das
representações artísticas de forma geral e no esporte, atividade esta na qual o
texto que segue irá se focar sobretudo no futebol e como tal relação com a
política se estabelece no Brasil.
A estreita relação política com futebol sempre ocorreu não apenas em nosso
país e não somente no que se refere particularmente a este esporte. Os regimes
de excessão e as ditaduras fazem uso frequente desses expedientes no intuito de
conter os ímpetos de cobrança de melhores condições de vida da grande maioria
da população. Na Itália Facista e na Alemanha Nazista por exemplo os esportes
foram extremamente utilizados como propaganda política. Um dos fatos mais emblemáticos
que endossam o poder do regime nazista foi quando Hitler negou-se a entregar a
medalha de ouro ao campeão olímpico de corrida Jesse Owens porque o atleta era
negro.

No ano que segue o Brasil sediará a Copa do
Mundo e ainda que hoje o país esteja governado por um regime político em tese
democrático, o mesmo fará uso do estabelecimento do evento para discursar que o
país está em plena expansão
econômica e social o que justifica a realização da
Copa do Mundo aqui. Entretanto, o que
ocorre na verdade é o mascaramento das enormes dificuldades para realizar o
evento. Não há aeroportos suficientes, faltam estádios e muitos estão ainda
inacabados, há ausência de transporte público em quantidade e qualidade, isso
para não falar de escassez de energia elétrica e água. Há ainda a falta de segurança.
A premência em se realizar o que ainda resta fazer abre margem para a acusação
de negligência e estímulo a corrupção, mola mestra dessa estrutura que favorece
acordos escusos com empreiteiras, licitações às pressas ( quando essas ocorrem
) e uma série de negociatas que virão à tona ao término da copa. 
E por último, mas não menos importante é o
que denominarei de talento individual dos atletas como fator determinante.
Explico: ainda que fatores externos influenciem o resultado de uma partida de
futebol ou mesmo de um campeonato mundial tem-se uma “carta na manga” que é o
talento individual do jogador de futebol. Há quem diga que mesmo o futebol é um
jogo de cartas marcadas e podemos considerar tal assertiva verdadeira até certo
ponto. Desde a escolha das chaves as seleções que compõe quanto os lugares onde
se realizarão os jogos. Como ilustração lembro-me de certa vez em que aconteceu
um jogo amistoso da seleção brasileira que foi realizado no estado do Maranhão
e transmitido pela Rede Globo, num dia que excepcionalmente a novela terminaria
antes de seu horário habitual para a exibição do evento. Um pouco antes da
novela o Jornal Nacional noticiava uma suposta candidatura da maranhense Roseana
Sarney para a presidência. “Juntando os pontos” compreende-se o porquê do jogo
no mesmo estado da futura candidata.( É claro que a candidatura não decolou
após denúncias de corrupção do governo da filha de José Sarney, mas isso é
outra história).
Resumindo, ainda que se planeje todo um aparato ideológico, na prática
o atleta pode não efetuar o resultado esperado e toda consequência positiva da
Copa não passar de quimera. O país está
numa encruzilhada: se se vence o campeonato mundial continuará a política de
pão e circo de sempre, com a falsa ideia de desenvolvimento econômico etc; se o Brasil perde a Copa poderemos perceber
com mais clareza a recessão que irá se seguir, afinal em ano de Copa do Mundo o
país trabalha menos e todo o gasto realizado para as obras da Copa agora é
apenas gasto, não é investimento, ou seja, esse dinheiro não irá retornar aos
cofres públicos com a mesma rapidez com a qual saiu. Muda-se o governo, fala-se
de outros países, mas a maneira como se faz para manter o controle das massas é
usado desde há muito tempo e ainda continuará mais um tanto, enquanto não
houver governantes compromissados com as verdadeiras necessidades sociais.