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terça-feira, 15 de julho de 2014
sábado, 5 de julho de 2014
Loiras na Alta Noite
Eu estava perdido. Em
Mogi das Cruzes, estado de São Paulo, dentro da rodoviária próxima ao centro
comercial da cidade, mas perdido. Nessa época trabalhava no Shopping Center e
era período das festas natalinas. E em tempo algo muito importante de ser
lembrado com atenção ímpar. É nessa época do ano em que nós precisamos nos
recolher e nos curvarmos em agradecimento a ele que veio ao mundo para nos
salvar: o décimo terceiro salário, ou você pensou que eu falava de Jesus? Ai,
meu Deus, mas que diabos! É a hora de o operário comprar aquela calça que ele
produziu custando dez e que agora na loja ele vai compara por vinte e nem
sequer dar conta de que o mesmo proprietário da indústria em que ele trabalha também
é dono das lojas do comércio local.

O jeito era esperar
madrugar. Quatro da madrugada era batata ter ônibus circulando. Sentei-me na
cadeira da rodoviária e pseudo-semi-quase-que cochilei. Logo depois decidi dar
uma volta pelo centro da cidade, afinal muitos bares ficavam abertos ali –
gente fina é outra coisa.

E foi então que ela
apareceu na porta dói banheiro. Ficou parada fumando de piteira com uma classe
de fazer inveja. Um luxo! Trajava saia justíssima, um decote na blusa turquesa
deixando evidentes seus seios cheios. Maquiagem no lugar, cabelos compridos,
alourados e soltos... mas seu rosto era velho, cansado, abatido por alguma
coisa que tão logo eu ficaria a par. Meus lábios não proferiram palavra; em
contrapartida meus olhos diziam, gritavam, tagarelavam. ela mesma se
prontificou:
- Posso me sentar
junto a você?
Bem, é claro que
concordei. Se já estava perdido, me perder um pouco mas não faria diferença. Perguntei
a ela se queria um drinque no que ela aceitou. Para quem hesitaria em gastar um
níquel numa máquina que toca música minha radical mudança de comportamento foi
surpreendente. Blá blá, blá vai blá, blá, blá vem ... perguntei seu nome e ela
me disse Lorena. Deixei que uma atmosfera se sensações tomasse espaço dado momento.
Eu sabia que aquele semblante fatigado e enfastiado deveria ter passado por uma
série de bons momentos porque se o rosto não atraía o corpo até que não era lá
de se dispensar. Estava enxuta a coroa. E é até cruel chama-la de coroa. Com aquele
corpo deveria ser uma atleta de alcova. Às vezes diz-se que está tudo em cima:
peito em cima de barriga, barriga em cima de coxa... essas coisas...
Mas era meso uma
coroa. Aliás, era uma figura mais ilustre do que eu imaginava. Nada mais nada
menos do que... a Loira do Banheiro! Ela me disse isso na maior naturalidade e me
emocionei, quase quis pegar um autógrafo mas aí pensei quanto era tietagem e
ela poderia me interpretar mal. A loira falava e eu não conseguia raciocinar. Como
ela poderia frequentar várias escolas ao mesmo tempo? Poderia ser uma farsante,
uma sósia, um clone, quem sabe. Mas no meu tempo de escola ovelha Dolly só em
ficção científica.Naquela ocasião essas interrogações não vieram á baila. E,
como que adivinhando minhas curiosidades prementes começou a falar de seu
passado. Disse que fora uma menina muito bonita e precoce. Dez anos de idade
tinha corpo de dezoito. Mas mesmo em tenra idade teve homem que não respeitou a
abusou sexualmente da menina. Tal episódio fez com que Lorena criasse asco por
sexo a ponto de querer se vingar. Como não encontraria o verdadeiro criminoso
decidiu atrasar a vida de qualquer homem. Alto ou baixo, obeso ou esquálido,
negro ou pálido, ninguém escaparia de Lorena...
Dito e feito. Passou
o resto da existência destruindo homens, machucando machos, adulterando
adúlteros. Até que um dia notou que ninguém mais dava bola para ela. Na vida
terrena o sistema de aparências instaurado em nosso mundo livre cobra seu
quinhão. Lorena foi ficando velha. O cabelo teve de tingir. Começou a usar espartilho
para despistar os “pneus” e meia calça para camuflar as pernas eivadas de varizes.
Pensou até em cirurgia plástica mas seus honorários não daria para tal. Foi
ficando mofina, moribunda, mocréia, mixa. Refletiu e pediu a conta. Iria se
aposentar.
_ Olha Lorena, você
não está velha nem nada. Apenas amadureceu. Seu erro na vida foi querer se
vingar de todo mundo e todo mundo não tinha culpa. Ninguém é igual, nem nossos
dedos das mãos. As pessoas não são classificadas como boas ou ruins, são o que
são. Comece a pensar assim e vai encarar os homens de outra forma. Eu por
exemplo não sou cruel, eu juro que...
Aí a loira começou a
me encarar de uma maneira mais penetrante. O olhar flamejava, a boca seca, algo
estranho... Recomeçou a falar a me xingar e quase a me bater.
- Ahá! Você também
tem esse papo de cara bonzinho? Olha, se bobear foi você mesmo quem me bolinou
naquela noite de humilhação e dor! Você não tem vergonha na sua cara, não,
seu...
E falou um palavrão. Continuou:
E tomou uma garrafa
de cerveja e atirou-a em minha cabeça. Desmaiei.
Agora continuo
perdido. Estou num hospital, de cabeça quebrada, o dinheiro de minha carteira
desapareceu idem a loira. Acho que a cerveja que bebi estava estragada pois
vinha escrito no rótulo “desde 1888”. Eu, hein! Evite loiras geladas e
dependendo da ocasião em sentido ambíguo. Continuo perdido mas só assim poderei
me encontrar...
quinta-feira, 3 de julho de 2014
Rei da Estrada - Por Fábio Sant'Anna
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