drops rock

sábado, 5 de julho de 2014

Loiras na Alta Noite


  Eu estava perdido. Em Mogi das Cruzes, estado de São Paulo, dentro da rodoviária próxima ao centro comercial da cidade, mas perdido. Nessa época trabalhava no Shopping Center e era período das festas natalinas. E em tempo algo muito importante de ser lembrado com atenção ímpar. É nessa época do ano em que nós precisamos nos recolher e nos curvarmos em agradecimento a ele que veio ao mundo para nos salvar: o décimo terceiro salário, ou você pensou que eu falava de Jesus? Ai, meu Deus, mas que diabos! É a hora de o operário comprar aquela calça que ele produziu custando dez e que agora na loja ele vai compara por vinte e nem sequer dar conta de que o mesmo proprietário da indústria em que ele trabalha também é dono das lojas do comércio local.
   Bem, mas como eu dizia, estávamos perdidos, eu e os proletários ávidos para consumir a enganação mensal que o patrão nosso de cada dia nos paga. Foi por causa dessa alheia procura desenfreada por presentes que fui deixar meu local de trabalho fora de meu horário habitual de expediente e perdi o último ônibus, o último trem, o último táxi e talvez perdesse o último avião se houvesse. Como escrevera Drummond “perdi o bonde e a esperança”...
   O jeito era esperar madrugar. Quatro da madrugada era batata ter ônibus circulando. Sentei-me na cadeira da rodoviária e pseudo-semi-quase-que cochilei. Logo depois decidi dar uma volta pelo centro da cidade, afinal muitos bares ficavam abertos ali – gente fina é outra coisa.
   Entrei nu boteco que tinha aquelas máquinas em que se põe uma moeda e escolhe música. Joguei um níquel escolhi uma melodia de uma banda americana de rock dos idos do final dos anos de 1960 – The Doors. É importante explicar o porquê. A canção era muito comprida assim seria um bom investimento ter gasto a minha moeda.  E lá estava eu na quarta cerveja e o som dos Doors ainda tocava. Fui me sentar numa mesa próxima ao sanitário feminino e isso me preocupava, pois no momento de descarregar a cerveja eu não poderia me confundir...
   E foi então que ela apareceu na porta dói banheiro. Ficou parada fumando de piteira com uma classe de fazer inveja. Um luxo! Trajava saia justíssima, um decote na blusa turquesa deixando evidentes seus seios cheios.  Maquiagem no lugar, cabelos compridos, alourados e soltos... mas seu rosto era velho, cansado, abatido por alguma coisa que tão logo eu ficaria a par. Meus lábios não proferiram palavra; em contrapartida meus olhos diziam, gritavam, tagarelavam. ela mesma se prontificou:
   - Posso me sentar junto a você?
   Bem, é claro que concordei. Se já estava perdido, me perder um pouco mas não faria diferença. Perguntei a ela se queria um drinque no que ela aceitou. Para quem hesitaria em gastar um níquel numa máquina que toca música minha radical mudança de comportamento foi surpreendente. Blá blá, blá vai blá, blá, blá vem ... perguntei seu nome e ela me disse Lorena. Deixei que uma atmosfera se sensações tomasse espaço dado momento. Eu sabia que aquele semblante fatigado e enfastiado deveria ter passado por uma série de bons momentos porque se o rosto não atraía o corpo até que não era lá de se dispensar. Estava enxuta a coroa. E é até cruel chama-la de coroa. Com aquele corpo deveria ser uma atleta de alcova. Às vezes diz-se que está tudo em cima: peito em cima de barriga, barriga em cima de coxa... essas coisas...
   Mas era meso uma coroa. Aliás, era uma figura mais ilustre do que eu imaginava. Nada mais nada menos do que... a Loira do Banheiro! Ela me disse isso na maior naturalidade e me emocionei, quase quis pegar um autógrafo mas aí pensei quanto era tietagem e ela poderia me interpretar mal. A loira falava e eu não conseguia raciocinar. Como ela poderia frequentar várias escolas ao mesmo tempo? Poderia ser uma farsante, uma sósia, um clone, quem sabe. Mas no meu tempo de escola ovelha Dolly só em ficção científica.Naquela ocasião essas interrogações não vieram á baila. E, como que adivinhando minhas curiosidades prementes começou a falar de seu passado. Disse que fora uma menina muito bonita e precoce. Dez anos de idade tinha corpo de dezoito. Mas mesmo em tenra idade teve homem que não respeitou a abusou sexualmente da menina. Tal episódio fez com que Lorena criasse asco por sexo a ponto de querer se vingar. Como não encontraria o verdadeiro criminoso decidiu atrasar a vida de qualquer homem. Alto ou baixo, obeso ou esquálido, negro ou pálido, ninguém escaparia de Lorena...
   Dito e feito. Passou o resto da existência destruindo homens, machucando machos, adulterando adúlteros. Até que um dia notou que ninguém mais dava bola para ela. Na vida terrena o sistema de aparências instaurado em nosso mundo livre cobra seu quinhão. Lorena foi ficando velha. O cabelo teve de tingir. Começou a usar espartilho para despistar os “pneus” e meia calça para camuflar as pernas eivadas de varizes. Pensou até em cirurgia plástica mas seus honorários não daria para tal. Foi ficando mofina, moribunda, mocréia, mixa. Refletiu e pediu a conta. Iria se aposentar.
   _ Olha Lorena, você não está velha nem nada. Apenas amadureceu. Seu erro na vida foi querer se vingar de todo mundo e todo mundo não tinha culpa. Ninguém é igual, nem nossos dedos das mãos. As pessoas não são classificadas como boas ou ruins, são o que são. Comece a pensar assim e vai encarar os homens de outra forma. Eu por exemplo não sou cruel, eu juro que...
   Aí a loira começou a me encarar de uma maneira mais penetrante. O olhar flamejava, a boca seca, algo estranho... Recomeçou a falar a me xingar e quase a me bater.
   - Ahá! Você também tem esse papo de cara bonzinho? Olha, se bobear foi você mesmo quem me bolinou naquela noite de humilhação e dor! Você não tem vergonha na sua cara, não, seu...
E falou um palavrão. Continuou:
   _ Acha que vou cair nessa conversinha de Don Juan?! Aqui, ó!
   E tomou uma garrafa de cerveja e atirou-a em minha cabeça. Desmaiei.
   Agora continuo perdido. Estou num hospital, de cabeça quebrada, o dinheiro de minha carteira desapareceu idem a loira. Acho que a cerveja que bebi estava estragada pois vinha escrito no rótulo “desde 1888”. Eu, hein! Evite loiras geladas e dependendo da ocasião em sentido ambíguo. Continuo perdido mas só assim poderei me encontrar...


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