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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Conto de F...da

   Toda malícia resume-se, camufla-se atrás do olhar inocente. Noutras vezes um jeito desleixado e politicamente incorreto no trato às mulheres pode conter no íntimo uma timidez singular. Reconheço: nunca fui santo. Com as artimanhas dos adolescentes conhecidos mais pervertidos fui crescendo. Fiquei corpulento e desajeitado. O volume na calça jeans fazia-me corar. Verdadeira aflição lidar com a mudança. Mas mudava. Pensamentos sensuais resultado no lençol. A mãe fazia vista grossa. E o tempo embora indo. Ampulheta por ampulheta. E passaram-se meus quinze anos. Cheguei aos vinte e hoje quase vinte e cinco. Sou homem feito ou desfeito em alguns assuntos.  A incompreensão embriaga-me alguns momentos. Como pude passar tanto tempo sem arrastar uma mulher? E arrastar é burlir, invadir a intimidade de uma fêmea. Não finjo ou forjo desculpas. Casa pequena, poucos namoros ou namoros curtos, escassas farras somado ao to de deboche de minhas atitudes. Talvez o jeito com que me expresse verbalmente. Às vezes brincalhão ao excesso, noutras taciturno e responsável. Preciso atingir o meio termo antes que meu extremo atinja o meio. O desejo da transa me queima, arde-me e é tão normal! Creio que todos os homens “normais” sintam isso, mas sei ainda que esses mesmos homens conseguem saciar suas vontades. Não podia sufocar-me com tal sigilo. Desabafei com meu melhor amigo. Aliás concluí que queria porque queria ter uma relação íntima com uma garota . Minha virgindade já era assunto entre os mais conhecidos para meu desalento. 
   E foi cansado de ficar na mão – e ficar na mão aqui em sentido ambíguo- que conheci Júlia numa festa, dessas festas quaisqeres. Bêbada como não deixava de serem as degeneradas. Embora seu hálito estivesse degradante mantinha uma beleza especial. Reparei seu corpo, muito gostoso por sinal. Uns seios robustos e convidativos. Pernas que quiçá andaram por muitos matagais por aí, imaginei. Como sou maldoso! Mas quem não seria?
   Conversa muita, ação nenhuma. Ainda assim tentei a sorte andando rumo norte. Foi em vão. Xinguei um palavrão.  No dia seguinte, mesmo sem questionar acabei recebendo as más novas da forasteira. Viera de outro estado, mora de favores na casa de uma parenta.  Saíra de sua cidade natal por má conduta emocional, ou antes, sexual. Pertencia ao rol das "desajustadas”. Se alguém a desejasse não o seria por todo o sempre. Ah, como eu fora tolo. Ainda titubeei algum escrúpulo da parte daquela vaca!... Perdão, o pobre animal não merece tamanho rebaixamento moral para a sua espécie.
  No fundo, no fundo, talvez meu sentimento fosse uma flamejante inveja incendiando meu peito. Como pode uma jovenzinha - sim, porque Júlia só tinha quinze anos – ter todos esses incidentes eróticos sendo uma mulher interiorana enquanto eu, um macho  e adulto com cara de mau e cheio de cicratizes não ter deitado com uma prostituta que fosse?!
   Mas aí estava a questão do escrúpulo. Jamais eu me deitaria com uma mulher da vida. O fato de pagar para ter uma ejaculação parecia-me um apelo muito ridículo. Só de pensar não sentia tesão. Por outro lado, qualquer puta me interessava, desde que me desse com todo prazer, sem os apelos financeiros encontrados na moderna mas lodosa sociedade capitalista. 
   Quando soube da novidade, da liberdade libidinosa de Júlia alcei minhas sobrancelhas. Dessa vez essa não iria escapar. Estudando minha árvore ginecológica Marina ficou com aquele chato na viagem à casa de praia. No acampamento segurei vela de muita gente, ou melhor, segurei lampião. Virgínia entrou para o convento e a Rita levou meu sorriso quando morreu por causa de problemas cardíacos. Na fazenda, nas férias, jamais em sã consciência usaria as cabras do avô para saciar meus instintos animalescos como faziam meus primos de lá de longe. O diabo é que até homossexual me ofereceu! Mas não era nada disso, o lance era mulher – fosse ela esquálida ou balofa , ruiva ou sarará, sei lá...  Eu queria, precisava, necessitava, urgenciava uma mamífera da espécie homo sapiens para jorrar o meu leite e Júlia parecia ser a presa certa.
   Ao contar meu desejo a um de meus colegas foi ele mesmo quem me falou:
   _ah, a Júlia? Ah, já comi. Ela quis me dar e foi em casa mesmo. Nossa!Como é macia!...
   Quase molhei a cueca. Suei-me. Só de pensar sentir meus dedos perseguindo cada curva voluptuosa daquela forma. Entretanto, com algo eu não contava. Este meu amigo dias idos desentendera-se com a moça. Antes porem dissera que eu queria ficar com ela. Na hora Júlia até se interessou só que depois da discussão de ambos ela decidiu voltar atrás pois isso de ficar comigo representaria consentir com seu não mais amigo. Mesmo assim fui teimoso. Saímos uma noite dessas de céu límpido a caminho de uma pizzaria afinal mesmo não ocorrendo nada ao menos tudo acabaria em pizza. Estávamos em turma até o momento de nos deixarem sozinhos dentro do carro. Assim o teatro abriu as cortinas. Investia com palavras, ela negava. Investia com gestos, ela olhava para fora. Investia com toques em sua pele, ela repelia. Investia finalmente com um beijo roubado, ela me fez desistir com uma tapa.
   _Ai!
   _Machucou?
  _Ainda não.
  _Você será capaz de tentar continuar?
   Eu me esquecera de dizer a ela que para evitar o estupro era necessário somente dizer “sim”. Meu amigo, esse outro, dono do carro, já sabia de minhas intenções com Júlia e me apoiava. Tanto que resolveu dirigir para uma estrada deserta e sem luz, às desoras da noite.  Captei reação alguma de Júlia, parecia até que gozava com aquilo. Até que meu amigo deu ré e retornamos para casa...
   Na noite anterior nada dera certo. Nada dera. Nem Júlia dera. As madrugadas vindouras mostraram-se difíceis para mim. Andava obcecado. Queria Júlia da maneira que fosse. Absurdo todos ali terem-na nos braços e sentirem sua volúpia menos eu. Tal situação trazia inconformismo.  Pensava em pegá-la à força. Dado momento me relampeou um truque. Seria mesmo à força. Involuntariamente...
   Todos sabiam da ninfomania daquela garota daí concluí que qualquer homem transaria com ela, até meu melhor amigo, bastava convencê-lo de aceitar chamá-la pra um motel ela aceitaria sem sombra de dúvida. E onde eu entraria nessa história? Ora... No banco de trás do carro...


   Muita trepidação na estrada de terra, principalmente é sensível às lombadas quando se viaja debaixo do banco traseiro de um fusca. Que situação desconfortável. Foi por pouco tempo. Mas eu suei, me amassei, peidei, enfim, foi duro. Meu amigo desceu do carro junto à Júlia que já lambia os beiços, não por se tratar daquele cara mas pelo glamour de ir num motel pois jamais visitara um em sua cidade. Lá os meninos chamam de “matel” por ser mesmo no mato.
   Meu amigo se recusava a deitar com a moça. Ele simplesmente apagaria a luz do quarto e me chamaria. Depois do fato consumado acenderíamos os holofotes e o riso tomaria conta do recinto. Minha vingança estaria tomada. Aquela vadia não era mulher de copular para esse meu amigo que já era muito experiente, apenas se divertia com tudo aquilo. Dizia que não valia a pena se envolver com um espírito tão inferior como o da estirpe de Júlia. Eu pensava em tudo isso minutos antes de descer do carro. Aquela seria a minha primeira relação sexual, ao mesmo tempo porque considerar um acontecimento tão célebre e escolher uma criatura deveras inútil e desprezível? Será que eu não estaria exagerando na ânsia de cumprir um papel social que o mundo me impunha? Era o lado individual e o coletivo zanzando em minha cabeça. Poderia ser aquela uma experiência traumática para o resto de minha vida. E se os poréns realmente cruzassem meu destino? E se a vagina daquela adolescente fosse mesmo macia a ponto de eu confundir desejo com amor e me apegar aquela messalina?
   Caramba! Meuá amigo estava demorando. Será que com toda aquela demora teria decidido voltar atrás e metido com ela?
   É... Meu amigo estava realmente se demorando na alcova. Talvez tivesse se esquecido de mim com tudo aquilo em sua frente. Não, ele não poderia ter me traído, ou pelo menos traído a minha confiança. Minha paciência no fim. Levantei do carro e caminhei até a porta. Coloquei meu ouvido próximo à porta do quarto. Aí me veio infeliz palpite: vozes. Sussurros, gemidos, urros! Não aguentei e abri a porta que meu amigo deixara sem a tranca. Quando entrei meu amigo esparrachado na cama assistindo filme pornô.
   _Cadê? Cadê a Júlia?
   _Quê que cê tá fazendo aqui, seu panaca? Espera lá fora. Olha, ela tá na sauna, quer ver?
   Ele abriu a porta da sala da hidromassagem e pude ver Júlia através dos espelhos retrovisores das paredes laterais nadando como um peixinho, mergulhando como um submarino amarelo, maravilhosa... Mas eu podia ficar apenas admirando aquele corpo moreno sem poder fazer uma massagem de onze dedos sequer!
   _ Tá demorando por quê? – inquiri.
   _ cara, ela não quer que eu apague a luz. Ficou impressionada com a decoração do quarto!
   _ Idiota! Da próxima vez vê se procura um motel mais ralé.
   _ O papo tá bom mas é melhor você voltar lá pra fora. Aguenta mais um pouquinho até ela pegar no sono aí você entra e eu saio.
   Então retornei.
   E, depois de muito titubear afinal eu me decidia. Não iria mais fazer aquilo.  Meu tesão poderia esperar. O ser humano por mais instintivo que seja pode controlar suas vontades. Qualquer garota não valeria a pena. Somente por vaidade? Só porque o mundo inteiro comeu Júlia? Ora, eu não era o mundo inteiro! Era um homem virgem mas um homem reflexivo, um filósofo...
   Tam! Tam! Tam!
  _ E aí? Vâmo? Desce do carro!
  _ Olha, não é por nada não...
    Meu amigo, de cabelo em pé, desacreditava das minhas palavras. Xingou-me de veado pra baixo. Disse que se era pra ouvir merda... etc etc etc...
   _Ah, vai lá você e faz com ela.
   _ Eu? Eu não!
   _Qual o problema? Ela só é mais uma fêmea para um macho já iniciado, não para mim.
   _ mas ela não me atrai. Já deu pra todo mundo. Tenho até nojo. Pegar uma doença venérea? Eu, hein!
   Agora quem desacreditava era eu. Enfim, foi o tempo de piscar de olhos ele entrou no quarto. Uns vinte minutos mais ou menos ele voltou.
   _ E aí?
   _ Não teve jeito, ela não quis me entender e saiu pela porta de trás do quarto. Vestiu a calcinha, o sutiã, a calça, a miniblusa, pegou seus badulaques e foi-se embora. Agora você pode se sentar no banco da frente do carro à vontade, não precisa ficar escondido aí no fundão, não...
   _ O quê? Sair do motel com você dentro do fusca? Ora, vá se foder! Eu vou ficar debaixo do banco mesmo.
   Assim ganhamos a estrada.
   Passado aquela conturbada noite minha vida continuou a mesma. Ainda sou o mesmo homem malicioso porém virgem e que quer sentir o prazer do sexo.
   Meu amigo é que já não é o mesmo. Júlia, despossuindo qualquer escrúpulo, espalhou aos quatro cantos que ele a levara no motel mas não soubera o que fazer. Tornou-se bicha pela boca de alguns malditos...


Verão de 1999