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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Um Toque no Rock


Um Toque no Rock

 É inegável a influência que as redes sociais exercem sobre a sociedade pós-moderna, para o bem ou para o mal. Faz-se amigos de um momento para o outro, divide-se intimidades com antípodas e descobre-se pessoas com predileções e antipatias semelhantes a sua. É assim com quase todos os usuários das redes virtuais, mundo do qual também dedico um tempo.
   No entanto, o mesmo universo que liberta pode escravizar e acirrar preconceitos, reforçar estigmas e até provocar inimizades, ao menos via computador, muito embora a grande maioria utilitária do serviço citado não o faz exatamente para tal propósito. 
   Pois bem: eu sou um fã de Rock. E o que é um fã senão indivíduo interessado por determinado assunto a ponto de querer saber mais sobre ele em comparação a maioria? Sou um fã de Rock estudante do assunto, exploratório do repertório dos músicos, interessado nas traduções das letras, de ideias e ideais por trás dos textos das canções, hábitos quiçá herdados de minha natureza professoral, onde a didática está par i passu  com as verdades históricas e suas múltiplas interpretações. E nesse desejo de adquirir maiores conhecimentos acerca do assunto supracitado, enveredei nos diversos grupos de discussão do tema, tando objetivando coletar informações para ampliar meus horizontes musicais quanto transferir a outrem alguma matéria considerada por mim auspiciosa. 

   Dentre algumas comunidades onde me inscrevi, tinha uma em especial de quantidade por demais considerável de membros, o que me atraiu em primeiro momento. Tão logo aceitaram meu pedido de inclusão comecei a postar vídeos e fotografias relacionados  ao tema, disponibilizava enquetes e áudios sobre Rock. Postava essa miscelânea de conteúdo com religiosa constância, até que um belo dia notei ter sido excluído da comunidade. No instante fiquei realmente chateado, magoado. Poderiam ao menos me avisar, já que enquanto fazia parte da página virtual eu tinha ais de vinte mil amigos...
   Após o incidente, decidi prosseguir em outras comunidades ser relatar o ocorrido, mas já visualizando com maior pragmatismo o Rock, seus fãs e as letras das canções, o que me levou a conclusões bem decepcionantes com o público médio amantes do estilo musical. Público este que à rigor se considera de inteligência superior a quem escuta outro tipo de música e que superestima o Rock sem fazer uma análise menos apaixonada. Como tal público considera tanto sua música séria,decidi  construir aqui um breve contraponto observando tal ritmo musical com o  mesmo grau de seriedade atribuído pelos admiradores. Relutei consideravelmente para publicar esse texto mas um cego fã de Rock considero-me um pesquisador, um quase cientista, atestando que o objeto de estudo deve ser esmiuçado com menor nível de subjetividade possível. E foi o que intentei fazer, embora não usei de estatísticas em registros, apenas me fiz valer de uns trinta anos de contato e observação com tal universo, de modo que esse tempo deva valer para alguma coisa.
   Das dezenas de páginas e comunidades de curtidores de Rock é unânime que seus membros afirmem detestarem o Funk Carioca, ritmo de bastante sucesso na atualidade no Brasil. O roqueiro médio alega ser tal estilo "lascivo" para não dizer explorador das sexualidade de forma inadequada e apelativa e que suas letras a luxúria e o desejo de ostentação por roupas, jóias e automóveis de alto valor são assuntos correntes e capitais.E ainda que é uma música utilizada para mexer a bunda e não o cérebro. Ok, tudo isso é válido, mas como era o Rock nos anos do "and Roll"?
   Nos primórdios da década de 1950 a música que os afro americanos cantavam e tocavam era chamada de Rhythm and Blues ( R&B), um primo aproximadíssimo daquilo que viria a ser Rock'n'Roll. Aliás, tão próximo que muitos já o consideravam Rock. Embora o ritmo fosse pulsante havia alguns "probleminhas" que impediam que a música no início tivesse uma penetração no mercado fonográfico primeiro porque os intérpretes eram negros cantando num país ainda bem arraigado na tradição Wasp. Segundo, o conteúdo das letras: a própria expressão Rock'n'Roll significava prática sexual. É importante se considerar o quadro socioeconômico norte americano em tempo. Os Estados Unidos, vencedores da Segunda Guerra passavam pelo Baby Boom, a geração da pungência econômica onde as pessoas mantinham seus capitais  sobre controle com a esperança de se investir em outros produtos e diversões. Tais períodos de riqueza econômica favorece também à ociosidade e por tabela a um relativo hedonismo, refletido nas letras do Rock em seu primeiro momento. Havia desejo pelos grandes veículos automotivos ( Chuck Berry com Maybellene,  The Motorclycle Man, Floyd Robinson ); a paquera das "novinhas" ( Sweet Little Sixteen,  Chuck Berry ), sonhos de guitarras, jóias e roupas caras. E tudo isso regado com músicas que faziam chacoalhar braços, pernas e bunda como a inocente Tutti Frutti.  
   Agora, com uma guinada de 180 graus chegamos ao Brasil no século XXI nas décadas de 2000 e 2010 onde um desenvolvimento socioeconômico beneficiou sobremaneira as classes menos favorecidas ( C e D ) que passaram a ter mais dinheiro e por conseguinte , o poder de reinventar sua juventude, produzindo e consumindo seu próprio estilo de vida embalado nas canções produzidas por eles mesmos: o Funk Carioca, de temática da ostentação de automóveis de luxo, obtenção de jóias e roupas caras, a conquista de mulheres de pouca idade e um forte apelo a sexualidade, argumentos estes iguaizinhos aos citados n Rock produzido nos idos de 1950... "Ah! Mas isso é exagero!", pensará alguém aí. Talvez... o fato é que o Rock só emplacou na sociedade norte americana de forma homogênea quando Elvis Presley que era loiro, branco, bonito aos padrões consideráveis e que ainda cantava e dançava como um negro aderiu ao estilo. Era o que a sociedade Wasp necessitava para agregar o ritmo em definitivo. É claro que os intérpretes negros prosseguiram com suas carreiras, bem verdade em menor sucesso frente a esmagadora presença de Elvis the Pelvis. 
   Mas o Rock também amadureceu. E o seu momento de apogeu onde tornou-se arma de contestação social dos valores morias e instrumento de questionamento da política e seus líderes ocorreu na década de 1960. Ressalta-se que houveram revoluções sociais nas quais a bandeira hasteada era o Rock mas esse momento único na história do Rock ficou sedimentado  e perdido naquela década, ainda assim com ressalvas. Até o maior fenômeno musical da cultura Ocidental do século XX, os Beatles, só começaram a ter uma postura mais politizada na segunda metade da década no tocante as letras das canções. Sim, refiro-me ao texto, haja vista que musicalmente o quarteto desenvolveu técnicas de melodia, harmonia e instrumentação superadas a cada LP lançado. Importante salientar: tanto Europa e principalmente nos Estados Unidos a repressão sexual estava ainda muito em voga. E,  algumas atitudes morais que eram revolucionárias naquele tempo hoje são meramente pueris, como o homem deixar o cabelos compridos era um gesto transgressor sem precedente. 
 
 E mesmo com uma campanha quanto ao término da segregação racial, como os Beatles não se apresentarem em lugares com tais legislações, o Rock não refletiu esses objetivos com seus nomes em destaque, excetuando um ou outro músico. E foi percebendo que o negro perdera espaço dentro daquilo por ele mesmo inventado que Berry Gordy decidiu abrir uma gravadora  só com  artistas negros  -a Motown , desprovida é bem verdade de uma preocupação social ou racial mais radical, objetivava sobretudo ganhar dinheiro a princípio e foi bem sucedido nessa empreitada. Alguns anos adiante, estoura o movimento Black Power e com ele diversos cantores negros com temáticas politizadas à etnia como James Borwn e Ottis Redding, reforçando mais uma vez a grande criatividade do afro americano que saía do Rock mas reavivava a Soul Music, o Funk, o Reggae e até futuramente a Disco.
 
 Outro ponto fundamental para compreender o Rock e saber onde ele chegou são as drogas. Na década de 1960 nos Estados Unidos era comum usá-las como se fossem chicletes. Há quem  as considerava responsáveis por expandir a mente, e de certa forma era o que realmente ocorria, e isso recaiu no Rock e maneira ímpar pois o ritmo jamais foi o mesmo. Dessas viagens desenvolveu-se vários outros subgêneros do Rock com destaque para dois: O Heavy Metal e o Rock Progressivo. 
   De todos os subgêneros surgidos no Rock o Heavy Metal é sem dúvida o que agrega o público mais intransigente e reacionário. Para o fã de Heavy Metal nada é melhor do que sua própria música e quase nunca o ouvinte deseja ouvir algo que não se assemelhe ao que seu ouvido já escutou. A aceleração utilizada pelo guitarrista em seu instrumento é sinônimo de técnica e qualidade sonora. Um adendo: no velho mundo valores tradicionais das religiões foram integrados há mais de mil anos, bem como todo um mar de hipocrisia e corrupção advindo deles. Daí o curtidor de Metal ser contrário às religiões, ateu ou satanista -  ( eis aí seu papel social ) -  e faz dessa postura elementos nas letras das canções. 
   A outra grande falácia repetida ad nauseam no meio da comunidade rocker  é que o Rock é liberdade. Mas para quem? Quase sempre o rocker faz uso dessa frase para reproduzir posturas relacionadas a um estado opressor numa sociedade competidora onde ter uma motocicleta milionária e participar de um clube, beber muita cerveja importada e comportar-se com misoginia é o padrão de liberdade desse sujeito. Não é à toa que em países de "cultura fechada" tentou-se por muito tempo proibir a difusão do Rock, não pel ritmo mas pelos valores a ele agregados. Reconheço que a sonoridade produzida no Rock, Hard ou Heavy Metal e outros subgêneros traga algo sensorial de liberdade. mas dizer que essa música é mais intelectualizada que outras por ter mais mensagem não convém.  Bandas como Led Zeppelin e AC/DC tem instrumentação e vocais poderosos, porém as letras de suas canções são triviais, quando não falam de bebidas, estrada, mulheres - a liberdade já citada. 
 
 Há os apreciadores de outro subgênero do Rock conhecido como Progressivo. Produzido por quem realmente "entende" de música, ou seja, alunos que vêm de conservatórios musicais que lêm partituras, que tem reconhecimento de música erudita, sobretudo dinheiro para bancar tudo isso. O apreciador de Rock Progressivo é quase um autista, um Robinson Crusoé na ilha de Yes, Genesis, Emerson Lake & Palmer e quejandos. Presta tanta atenção nos acordes que não pode sequer pular num show de Rock. A música é elevada ao estato de quase Jazz, com a fundamental diferença: nenhum negro está na banda. Em suma: música para músicos. 
   E por fim, o Punk. Falo "por fim" porque creio que tudo do Rock vindo após esse subgênero não passou de perfumaria. Sei da importância de outros ritmos agregados e reinventados mas Punk foi a quebra dos paradigmas e encerrando com ele tem-se uma visão panorâmica do que o Rock foi e o que se tornou. Dentre os subgêneros o Punk foi o que melhor representou o retorno às origens do ritmo no tocante a estética da dança e num  contraponto em transmitir mensagens de contestação social, algo que se perdeu no Rock desde há muito tempo. Se o Rock é rebeldia, contestação, crítica de valores, negação do que está estabelecido, alertas em letras, vestimenta e visual, o Punk soube sintetizar isso de maneira ímpar: o retorno da rebeldia juvenil em dança ( Ramones ) , indumentária ( Sex Pistols ) e letras de conteúdo ( The Clash ). Há quem nunca gostou de Punk dada a regressão na maneira de tocar, bem rudimentar em comparado `s bandas de Progressivo e com a utilização de muito menos notas que os "metaleiros". 
Diante do exposto e do que mais poderia ter sido relatado é que o Rock pode ser contestação ou alienação; música de bunda e/ou cérebro. Pode ser erudito sem ser pedante e se for liberdade é possível se valer de reflexão, de crítica, de autocrítica, como aqui nesse breve texto. Mas antes de tudo o Rock é música. Se se quer levá-lo a sério poderá se tornar outra coisa. Fica a dica aos intelectuóides roqueiros e as futuras gerações. Com preguiça não se lê livros mas a música é diversão em primeiro lugar.