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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Masculinicídio Necessário

MASCULINICÍDIO NECESSÁRIO

   De uns tempos para cá nunca se escreveu e discutiu-se tanto o feminismo, seja nos noticiosos midiáticos tradicionais como nos canais cibernéticos das "internets" afora. Admira-me esse posicionamento da mulher, referente a questão política envolvendo o tema quanto o papel social e moral exercido pelo sexo feminino em um país historicamente machista. 
   Há quem pré-julgará o texto aqui exposto alegando o fato de que eu, sendo homem, nada possa afirmar ou negar sobre o assunto. Se toda a reflexão acerca de quaisquer temas tivessem de vir revestidos de "especialistas" para analisá-los não se faria uma original abstração do pensamento - grande mérito e propósito do exercício intelectual. Brancos não filosofariam sobre preconceito sofrido por afrodescendentes, ou os homens não teriam uma opinião formada a respeito do  aborto por despossuírem da característica da maternidade. Parece-me tal argumento simplista e pouco conclusivo. A resiliência, o colocar-se no lugar do outro amplia o campo da reflexão de qualquer sujeito sobre o tema a se explanar. 
   Após o parágrafo classificado por mim como parêntesis, sigo a análise destacando existir um movimento feminista/feminino do qual o sexo masculino desconhece ou simplesmente o considera desimportante.  E é sobre o efeito do feminismo a abordagem desse artigo, ainda que a observação do fenômeno em si também seja de capital importância- o que será reservado a outro momento. Pois bem: o feminismo no século XXI no Brasil tem seu apogeu e isso deveria ser notado em primeiro lugar pelo brasileiro de sexo masculino até porque desconheço algum movimento advindo dos próprios homens que questione suas posturas em relação às mulheres, suas aspirações e modelos de conduta necessários a serem abandonados ou pelo menos transformados. 
   Creio que todo homem deveria refletir acerca de seu comportamento diante às mulheres. Falo por experiência própria pois só de certo tempo para cá venho pensando nisso e infelizmente conclui com minhas esparsas reflexões  quanto machismo  tenho em meu comportamento, por um lado,  introjetado por toneladas de propagandas televisivas e todo um arsenal ideológico veiculado pela cultura de massa; e por outro, através de uma própria ideologia da superioridade masculina difundida por séculos na sociedade e pouco refletida, algo quase pertencente ao inconsciente coletivo. Isso requer, todavia, um consciente corretivo, ao menos é o que almejo. 

O ofício do humor pode me trazer algumas surpresas, ora agradáveis, ora o contrário. O Humor é anárquico, livre de posicionamento político, haja visto que se for levado a sério deixa de sê-lo, tornando-se qualquer outra coisa. E em relação ao sexo feminino, atribuo meu machismo de forma concreta muito a literatura que produzi, cartuns e quadrinhos já elaborados tempos idos. E aqui traça-se caminhos paralelos concomitantemente opostos entre o ato e a intenção. Em momento algum desejei divulgar uma postura machista até porque a criatividade é mais parelha do inconsciente em detrimento do lado racional. É como se determinados preconceitos fossem exorcizados ao realizar minha Arte, ou mesmo ao redigir um texto explicitando certo sentimento sexista ou machista, salvo  da real intenção de provocá-lo. E isso pode ser ruim, mas na verdade é uma faca de dois gumes. Por um lado, o pecado do "machismo" é exorcizado ao participar da arte, mas após a mesma ter sua divulgação, tais conteúdos poderão ser absorvidos por uma grande parcela de homens que a princípio rirão das piadas e futuramente irão transferir a anedota ao seu inconsciente e com isso, a longo prazo, elevá-la a um patamar de verdade absoluta. Eis aí uma das responsabilidades do artista. Entretanto, tal raciocínio também carrega relativa carga simplista pois deposita toda a suposta culpa da ação irrefletida sempre ao produtor de conteúdo cultural e nunca ao seu interlocutor. Destarte, posso até pensar duas vezes antes de desenhar algo e tachá-lo de machista ou politicamente incorreto, mas o veredito final cabe ao consumidor da Arte.
   Assim, ao término do livro de crônicas ou do gibi, a vida é real. E foi consumindo Arte que me deparei com a situação do machismo e suas consequências. Estávamos em três amigos trabalhando quando um deles acionou uma página na internet e começou a ouvir a música "Bete Morreu" de uma banda de Rock chamada Camisa de Vênus. Mal chegou o refrão da canção e o outro colega advertiu ao primeiro que desligasse aquela música pois se tratava a letra de conteúdo machista. Eu não me privei de comentar e opinei alegando haver um equívoco e que era necessário se ater ao momento histórico-social em que a canção fora lançada no mercado etc. E para aqueles que desconhecem tal melodia, segue abaixo a letra da mesma, elaborada pela já citada banda de Rock vinda da Bahia, tendo como antepassado Gregório de Matos, vulgo Boca do Inferno :


Bete Morreu 
   ( Camisa de Vênus ) 

Bete tão bonita, gostosa
Bete era o tesão da escola 
Sempre na coluna social 
Exibindo o seu sorriso banal 
Todos queriam Bete 
Desejavam Bete
Sonhavam com Bete
Mas ela nem ligava 
Um dia ela saiu de casa 
Mas ao dobrar a esquina 
Foi empurrada dentro de um carro 
Prá deixar de ser menina 
Amordaçaram Bete 
Espancaram Bete 
Violentaram Bete 
Ela nem se mexeu 
Bete morreu 
Bete morreu 
Seu corpo foi encontrado 
Por um chofer de caminhão 
E agora está apodrecendo 
Lá dentro de um caixão 
Amordaçaram Bete 
Espancaram Bete 
Violentaram Bete
Ela nem se mexeu 
Bete morreu 
Bete morreu 
Bete, Bete morreu 
Bete, Bete morreu 
Bete, Bete morreu 
   
Bete Morreu foi lançada em LP no longínquo ano de 1983 em um disco contendo ao menos quatro faixas proibidas a sua execução pública - ou seja, poderia ter muito mais "machismo" e "sexismo" ainda. Enfim, vamos a Bete: 
   Segundo a letra da canção trata-se de uma jovem mulher da alta sociedade a se vangloriar ao máximo  de sua beleza física mas nega a companhia de qualquer homem, chegando a esnobar a todos. Sua soberba acarreta a revolta de um determinado grupo que para vingar-se a estupram e a matam; Na outra estrofe o autor diz que o corpo de Bete foi encontrado por um caminhoneiro e agora está apodrecendo num caixão. Diante disso pode-se partir de duas análises e citarei a menos óbvia. Bete era economicamente rica e isso lhe proporcionava status na sociedade. Mas essa vida de opulência sem trabalho provocava  ociosidade e por consequência um vazio que Bete intenta preencher considerando outros valores como superestimar sua beleza, o que colabora sobremaneira em sua alienação ao mundo real eivado de violência e inveja. Este último sentimento é amplificado graças ao poderio econômico da personagem que não "transa" com ninguém mas "fodia" a maioria dos homens que seguindo o senso comum qualifica o rico como usurpador, quase sempre responsável pela pobreza alheia. A ostentação de Bete não a faz perceber o risco oriundo desse comportamento. Tem-se aí uma alegoria sobre o que representa a beleza exterior, a fama e o que tais valores quando exaustivamente propagandeados pode ocasionar em uma sociedade violenta. A crítica pode estar muito mais atrelada a uma questão até de luta de classes e a opulência vivida pela personagem provocando inveja em detrimento daquele que nada tem, nem dinheiro e nem sexo. Os homens viam em Bete um objeto e ela mesma se posicionava como tal. Não é a toa que ao final da canção ela aparece apodrecendo num caixão, como se fosse uma fruta podre ou algo meramente descartável. 
A outra análise fica no âmbito de um suposto machismo que superficialmente parece mais óbvia. No entanto, é preciso analisar com maior profundidade a letra. 
   E mesmo que depois dessa análise razoável da letra do rock ainda houver uma incerteza ao conteúdo ser depreciativo à mulher, considere-se  aqui que não sou a favor de que nenhum homem saia por aí estuprando deliberadamente ninguém. Trata-se apenas de uma música e deve-se dessa forma  atribuir sua verdadeira importância ao entretenimento e não mais que isso. 
   Após terminado o trabalho e a discussão com  meus amigos,  tomei um ônibus e fui para casa. No caminho decidi beber uma cerveja e parei num bar. Num balcão próximo a mim, dois rapazes conversavam e eu nem estava prestando muita atenção na conversa quando um deles soltou a pérola de que estava "pegando" uma tal Mariazinha. Foi aí que eu percebi o regresso do Homem  há mais de quinhentos mil anos quando esse homem batia com a clava na cabeça da mulher para que essa se apaixonasse. Juro que quase entrei na conversa. Respirei fundo e sorvi mais um gole da cerveja que tem como propaganda um comercial veiculado na TV em que uma loira com seios fartos segura uma garrafa dessa cerveja e oferece a um sujeito, propaganda que une os seios da mulher ao "mamar". Não poderia ser mais grotesco para o mundo que nos cerca...
    O homem ter consciência dessas situações e refletir sobre seu papel na sociedade e no trato com as mulheres é apenas a ponta do iceberg, muito mais fundo e gelado do que Betes e Mariazinhas aqui citadas. Muito mais profundo do que esse meu texto introdutório. É necessário querer enxergar essas posturas, fazer a crítica e a auto-crítica. Ainda há tempo para o sexo masculino deixar de ser o pithecanthropus erectus e se tornar homem de verdade.